:: Arquivo Mundo Lynx ::
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Segunda-feira, Setembro 27, 2004
O que você faz quando quer ficar só?
Às vezes saio à noite para dançar, esbarro em alguém numa boate qualquer, os olhares se cruzam e nos beijamos sem ter trocado duas palavras antes. É um jeito fácil de conseguir estar genuinamente sozinha. Fico imaginando se o outro também pensa isso, se busca o mesmo sentimento naquele ato fútil. Não me atento a isso por muito tempo, pois na verdade não importa: quero somente sentir a imensa solidão daquele momento, e saber que o outro está ali sem me importar com quem seja ou com seus sentimentos. Desta forma transporto-me rapidamente para um mundo vazio, inodoro, amargo, triste, escuro. Sem vida.
Alguns não gostam desta sensação de estar só, mas sinto necessidade de ficar comigo mesma de vez em quando para saber até que ponto posso me suportar. E tem dias que não me agüento. Agonia toma conta de mim pois para isso não há fuga: eu sempre estarei lá. Sobrevivo à conflituosa convivência com a descoberta de que em meio à confusão mental ainda sou capaz de tolerar, compreender e de ter compaixão.
Hoje, outra fuga. Peguei minhas coisas - como são poucos meus pertences agora - e parti com minha Fusion. Não me preocupava aonde iria chegar. Mas desta vez fui rapidamente tomada pelo vazio avassalador. Voltei. Eu sempre retorno ao Castelo, mais cedo ou mais tarde.
Já não sei se volto por mim ou pelos outros. Talvez tenha receio de abandoná-los pois somos visivelmente mais fortes quando estamos juntos. Nosso poder está aumentando, e com ele as incertezas. Está cada vez menos seguro ficar perto de nós.
Eles querem um líder, é evidente que precisam de mim, e estou começando a acreditar que preciso deles igualmente. Vejo-me ligada aos outro sete de alguma forma, e não consigo entender como. Às vezes acho que também sinto como se fôssemos uma família.
As cidades como as conhecemos não mais existem desde 2100. A partir deste ano, começaram a ser construídas as cidades verticais. Cidades inteiras foram destruídas dando lugar a essas edificações. Os nomes originais das cidades foram esquecidos e elas passaram a ser identificadas por números bem como os países, planetas etc. Assim, não temos mais Rio de Janeiro, Atenas ou Washington, mas Cidade 2, Cidade 1333 etc.
O principal conceito envolvido na construção dessas cidades verticais foi a preservação dos recursos naturais do Planeta 8. Uma única estrutura dessas substitui muitos quarteirões, permitindo que o restante da área ocupada seja replantado. A estimativa de população de cada cidade é de 275.000 habitantes mas esse número pode ser muito maior, pois a cidade continua crescendo oficialmente para cima e clandestinamente no subsolo.
A cidade mais próxima de nosso refúgio - o Castelo - é a Cidade 77, lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Foi onde todos nascemos. Hoje somos estranhos no nosso próprio lar pois somente vamos à cidade sob disfarce para trabalhar, estudar, ou mesmo completar alguma missão. Andamos nas sombras com falsas identidades e atitudes, apenas fragmentos do que poderíamos ter sido.
O Dr. Brandt e Sarah estão visivelmente abalados com essas últimas oscilações do nível de poder. Pediram a nós que tirássemos alguns meses de descanso juntos, isolados numa das ilhas de Max. Não gostam das nossas idas à Cidade 77. Temem que fiquemos sozinhos e haja uma oscilação grande e repentina no nível de poder. Percebi em suas expressões preocupadas o quando se afeiçoaram a nós, e o medo que têm da simples idéia de nos perderem.
Mas não podemos nos deixar paralisar pela incerteza do nível de poder. Sei que é arriscado sairmos do Castelo para a Cidade 77 sabendo que, a qualquer momento, o nível de poder pode baixar a ponto de ficarmos extremamente fracos, ou aumentar demais, e perdermos o controle sobre nós mesmos. Temos que arriscar o que for preciso, pois risco maior é nos confinarmos como covardes e deixarmos de lutar.
Sempre fomos movidos pela busca de todas as informações que pudéssemos obter sobre nossas origens, nossos pais e o paradeiro dos outros afetados pela exposição. Sabemos que esses outros - milhares - que não tiveram a oportunidade de fugir do ITW com o Dr. Alexander Brandt podem ainda estar vivos e sendo treinados. Que poderoso exército poderiam formar? E quem sabe a que propósitos obscuros esse exército serviria?
Encontro com o aventureiro: um espírito livre cruza meu caminho.
Naquela noite, o aventureiro cruzou meu caminho pela primeira vez. O MNP marcava Perigo, e desmaiei para ser atacada em seguida pelo inimigo. Como se tivesse pressentido o que iria acontecer, o aventureiro havia me seguido, e me salvou.
Coisas boas não costumam acontecer comigo. Estava despreparada e ao despertar fui surpreendida. Olhar profundo e beijo ardente. Desajeitada, reagi. Não pude fazer mais do que me deixar levar pelo momento. Senti despertarem todos os meus sentidos e até outros sentidos que eu nem sabia existirem. Deitada o vi partir. Pensei em interrompê-lo mas algo me fazia observar imóvel a cena.
O aventureiro me pareceu tão assustadoramente livre que senti uma borboleta no estômago. Naquele pequeno momento em que nos encontramos parecia que, para ele, nunca havia existido tempo de separação entre nós: ele estava retomando o relacionamento como se tivéssemos nos visto no dia anterior.
Achei esse desprendimento fascinante, e, ao mesmo tempo, desafiador.